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Da várzea a quase matemático: conheça a história de Raniele

Desde 2015 acumulando títulos, terceira vez em uma final de campeonato e quatro anos seguidos jogando torneios nacionais. A sequência remete a um time que disputa a Série A do Brasileirão, mas na verdade se torna um feito para um time do interior paulista.

Pela primeira vez em sua história, a Ferroviária consegue chegar em três finais consecutivas de uma competição e pode chegar ao seu terceiro título de Copa Paulista, o segundo seguido. De quebra, já tem vaga garantida para disputar um torneio nacional, a Série D do Brasileirão 2019 ou a Copa do Brasil 2019.

A retomada do clube ao cenário paulista e nacional vem com o passar dos anos e um jogador faz parte desta história.

O zagueiro Raniele Almeida melo está na Locomotiva desde a volta à elite do Paulistão e escreve o seu nome na história do clube por ser o único jogador a disputar três finais seguidas de um torneio, podendo ser bicampeão da Copa Paulista.

Natural de Ipirá-BA (cidade com mais de 60 mil habitantes, segundo o IBGE), o jogador de 21 anos viveu situações conturbadas no começo tardio de carreira, jogando no futebol de várzea e participando de campeonatos amadores.

“Joguei futebol de várzea na minha cidade e depois me mudei para Conceição de Coité para jogar o campeonato intermunicipal, que é o maior campeonato amador da Bahia. Consegui ser um dos destaques do time. Um amigo me viu jogando e me levou para São Paulo”, conta Raniele à reportagem do RCIARARAQUARA.COM.

Com 17 anos, o destino era o Fernandópolis, que disputou o Campeonato Paulista da Segunda Divisão de 2015, considerada a quarta divisão do estado.

“Eu achei que mudando para cá [São Paulo] seria às mil maravilhas, mas não foi o que eu imaginei. Apesar disso, fiz os testes e consegui me profissionalizar para disputar a “Bêzinha” [apelido dado para a divisão]. Fomos vice-campeões e conquistamos o acesso para a terceira divisão”, conta.

No final daquele ano, a Ferroviária procurou Raniele e o acabou contratando, mas para jogar na base do clube.

“Neste período, eu estava muito desiludido com o futebol por terem me enganado muito. Saí do profissional para jogar na base, só que eu não tinha a dimensão do que era a Ferroviária”, recorda.

Em 2016, disputou a Copa São Paulo de Futebol Júnior. Na ocasião, a Ferroviária ficou no Grupo 7, que tinha Santos, Confiança (SE) e América (PE), e não foi bem, empatando um jogo e perdendo os outros dois, ficando fora logo na primeira fase.

Após a participação na competição, Raniele foi dispensado do clube e quase abandonou a carreira.

“Depois dessa dispensa, eu esqueci o futebol. Já estava quase arrumando emprego na minha cidade. Minha família não tinha condições de fazer muita coisa por mim. A passagem de ônibus ou de avião para São Paulo era muito cara, fora do nosso orçamento. Até que teve um dia que meu pai pagou a passagem para eu tentar mais uma vez”, conta o jogador.

O então “aposentado” estudou também para fazer as provas do Enem e queria ser matemático, trilhando o caminho do pai, Rubens Oliveira de Melo.

Porém, o próprio Rubens não queria que o filho desistisse do seu sonho e queria vê-lo brilhar dentro dos gramados. Foi no próprio clube de Araraquara que ele deu a volta por cima.

“Um pessoal da Ferroviária estava atrás de mim, mas eu falei para mim mesmo que não queria mais jogar futebol. Porém, meu pai me convenceu e fiz um contrato de experiência, válido por três meses, como se fosse uma nova avaliação”, lembra.

Raniele ao lado de seu pai, Rubens, na Fonte Luminosa

Raniele retornou para a base, onde disputou o Campeonato Paulista Sub-20. Sob o comando de Tiago Nunes, hoje treinador do Atlético-PR, a equipe estava fazendo uma boa campanha na competição, mas o comandante acabou deixando o time grená para treinar o São Paulo (RS). Em seu lugar, entrou Leonardo Mendes, o técnico que o auxiliou a crescer dentro do futebol.

“É um treinador que eu tenho muito carinho. Foi ele que me projetou e me bancou aqui dentro da Ferroviária, dando bastante apoio até chegar ao profissional”, declara.

Em uma partida do Paulista Sub-20, a Ferrinha enfrentou o Sertãozinho na casa do adversário. Quando o jogador fazia reconhecimento do gramado, Leonardo Mendes chegou para se “despedir”.

“Ele me deu um abraço e falou “É, Rani. Essa é a sua última partida com a gente”. Quando ele me disse aquilo, eu fiquei muito preocupado, achando que seria dispensado de novo. Eu perguntei, quis saber o motivo, aí ele me contou que eu iria integrar o time profissional que disputaria a Copa Paulista daquele ano”, contou o surpreso jogador.

O PRIMEIRO ANO, A PRIMEIRA FINAL

No elenco principal da Ferroviária, Raniele participou da equipe titular da Copa Paulista, formando dupla com Patrick, outro jogador revelado da base. Na campanha daquele ano, foi uma das equipes que menos tomou gols ao longo da competição.

A grande campanha condicionou o time a disputa do título diante do XV de Piracicaba. Em uma final épica: derrota no primeiro jogo por 2 a 0, em Piracicaba, e vitória por 3 a 1, em Araraquara. Nos pênaltis, o Nhô Quim acabou levando a melhor, ficando com o título. Raniele ficou no quase novamente.

“Aquele dia foi de muitas emoções. Começamos com uma desvantagem de 2 a 0 [do primeiro jogo] e conseguimos virar para 3 a 0, mas logo depois tomamos um gol e foi para a decisão por pênaltis. Fomos confiantes, estávamos com o sentimento de vitória, mas o final acabou sendo frustrante para todos nós”, relembra.

O vice-campeonato rendeu a participação da Ferrinha na Copa do Brasil de 2017.

A SEGUNDA FINAL, O PRIMEIRO TÍTULO

Em 2017, após se salvar do rebaixamento no Paulistão, a Locomotiva começou a reformulação em seu elenco para a disputa da Copa Paulista. Com muitas caras novas e com alguns remanescentes, o time deu início a luta pelo título para disputar o Brasileirão da Série D de 2018.

Com mais uma campanha irretocável, Raniele & cia chegaramm em mais uma final, novamente contra um time alvinegro, desta vez a Internacional de Limeira.

Na primeira fase, os times já haviam se enfrentado duas vezes e com empates por 2 a 2 e 0 a 0. Na final, mais dois empates, coincidentemente por 0 a 0 e 2 a 2 e uma nova disputa por pênaltis na Fonte Luminosa estava prestes acontecer.

“O que aconteceu em 2016 me fortaleceu muito. No ano passado, contra a Inter e de novo nos pênaltis, eu falava para os meus companheiros que eu não queria perder e não queria fosse igual aquele ano”, revela o zagueiro.

Na emocionante disputa, a Locomotiva venceu por 7 a 6 e Raniele marcou o último gol grená antes da defesa do goleiro Tadeu, que sacramentaria o título.

“2017 foi um ano marcante para mim. Foi o ano que eu senti pela primeira vez o que é ser campeão atuando profissionalmente. Tinha sido vice-campeão da “Bêzinha” e da Copa Paulista, mas você sentir o gosto de campeão pela primeira vez é muito gratificante, ainda mais decidindo, quando eu bati o último pênalti”.

Ali, a Ferrinha, além de ser bicampeã da Copa Paulista, garantiu a tão sonhada vaga para a Série D do Brasileirão 2018.

Raniele festeja o título da Copa Paulista de 2017

TRÊS VEZES FERROVIÁRIA, TRÊS VEZES RANIELE

No início de 2018, o jogador acabou sendo emprestado ao Taubaté para a disputa da Série A2 do Campeonato Paulista. O zagueiro foi titular absoluto, mas o Burro da Central acabou ficando na primeira fase do campeonato, longe do acesso à elite.

De volta à Ferroviária, o jovem disputou a Série D e o time teve um desempenho, não conseguindo ganhar os seis jogos que tinha direito na primeira fase, sendo eliminado precocemente.

Mais uma vez, Raniele e Ferroviária disputam e chegam pela terceira vez seguida em uma decisão de Copa Paulista. Atuando em algumas partidas, o zagueiro participa da disputa sadia com os outros companheiros, Gualberto e Elton.

Apesar disso, aos 21 anos, o jogador ultrapassou a marca dos 50 jogos com a camisa grená durante a disputa da Copinha.

“Essa é uma marca expressiva, ainda mais se tratando de um clube do interior. A lógica é que muitos clubes do interior não tenham tanta estrutura, mas a Ferroviária é um ponto fora da curva. É um clube que tem um projeto muito bom, tem uma estrutura muito boa, conseguiu me dar todo o suporte desde quando eu saí da categoria de base e no profissional para que eu pudesse desempenhar todo o meu trabalho”, conta.

Zagueiros Elton e Raniele bateram marcas expressivas e receberam homenagem das mãos do diretor de futebol, Roque Jr.

“Poucos atletas no interior têm isso [50 jogos], até mesmo dos grandes clubes, ainda mais subindo da base e batendo essa marca com a camisa do mesmo time. Isso simboliza não só o trabalho da Ferroviária, como também o meu trabalho, a minha dedicação diária e meu comprometimento com o clube, o qual eu procuro honrar todos os dias e desempenhar o meu papel dentro de campo”, completa o zagueiro.

Em algumas situações, o zagueiro se transformou em lateral-direito na competição deste ano, como na última partida, diante do Red Bull, quando entrou no lugar do lateral Vinícius Pedalada.

“Espero que daqui duas semanas, este ano seja mais um marcante para minha carreira”, finaliza.

Agora, a Ferroviária decidirá o tricampeonato contra o Votuporanguense. O primeiro jogo acontecerá no próximo domingo (25), às 11h, na Arena Plínio Marin, em Votuporanga.

Já o segundo confronto foi marcado para o dia 2 de dezembro, também em um domingo, às 11h, na Fonte Luminosa, em Araraquara.

Crédito das fotos: Thiago Carvalho/Assessoria Ferroviária – Rodrigo Corsi/FPF – Arquivo Pessoal

 

Fonte: RCI Araraquara